Tuesday, April 10, 2007

Numa das mil e uma noites...


Nesta sexta-feira passada tive a oportunidade única de assistir a um casamento Marroquino. Digo única porque havia, de facto, muito poucos não-marroquinos presentes na cerimónia e tive a clara sensação de que estas festividades são reservadas às famílias ou a pessoas muito próximas. O grau de intimidade e cumplicidade que senti com todas aquelas pessoas que estavam presentes deveu-se a um entendimento geral de que se estávamos ali seria porque partilhávamos um laço forte com a noiva ou com o noivo. Senti-me abraçada por todo aquele ambiente prazenteiro e gostei muito! Esta será talvez uma das diferenças mais subtis entre uma cerimónia de casamento marroquina e uma (por exemplo) em Portugal ou na Holanda, onde nunca senti este laço entre as diferentes pessoas que haviam sido convidadas.
Mas claro está que houve diferenças bem mais gritantes, que tornaram esta experiência para mim única e divertida! Para começar, num casamento tradicional marroquino não há cá misturas entre homens e mulheres. É cada um para o seu sítio! Às mulheres estava reservada a sala principal, onde estava a banda e a pista de dança. Os homens estavam numa sala à parte, com vista para a sala das mulheres, mas ao contrário do que esperava muito poucos foram aqueles que de vez em quando apanhava a espreitar as meninas. Tive a clara sensação que nesta cultura a mulher é tratada como um tesouro! O melhor da festa estava reservado às mulheres, elas podem dançar e divertir-se, elas são servidas em primeiro lugar e só depois de terem acabado a refeição é que os homens são servidos (!!!), as mulheres enfeitam-se com os melhores vestidos e jóias - tudo de uma ostentação de meter inveja à rainha de Inglaterra - enquanto que os homens aparecem mais sóbrios e discretos.
Outra diferença óbvia entre uma festa marroquina e uma europeia: Fanta laranja para toda a gente!!!! Como é óbvio, o Deus Baco não faz das suas... ou seja, não são servidas bebidas alcoólicas! Foi para mim engraçado estar numa festa que durou até às tantas sem sequer sentir o sabor de vinho... e a verdade é que parecia não fazer falta a ninguém, pois a alegria e energia eram contagiantes e não houve alminha (feminina, que os homens não dançam) que não abanasse a anca numa dança do ventre embriagante, dos 8 aos 80!
A minha amiga, a noiva, apareceu quatro vezes ao longo da noite. Cada uma destas aparições era marcada por um vestido distinto, cada qual mais exuberante e espectacular que o anterior. As aparições dos noivos eram breves, e mais parecia que a nossa festa estava a ser momentaneamente visitada por algum membro da realeza. Eles eram acompanhados por músicos, pétalas no chão, e andavam lenta e solenemente pela sala, passando perto de cada mesa e olhando cada um dos convidados nos olhos, enquanto estes entoavam cânticos de alegria e desejavam-lhes sorte e felicidade, fazendo gestos muito particulares com as mãos. Depois de cada solene passeio, o casal sentava-se num trono dourado, estrategicamente disposto no centro da sala, onde eram admirados e fotografados por breves momentos. Então retiravam-se, e a festa entregava-se à alegria mais uma vez...
Foi um ritual muito simbólico, uma comunhão muito espiritual... Uma festa onde a ostentação das roupas e jóias contrastava com a simplicidade dos pratos apresentados... Senti-me muito bem neste meio, por um dia. Ou melhor, por uma noite...

2 comments:

sara said...

Estiveste noutro mundo, que previlégio. Para além da vontade imensa de "viver" o mesmo que me fizeste sentir (adori o post), ainda ficou na cabeca... o "outro lado" da diferenca entre o homem e a mulher. Se calhar nem tudo é discriminacão, nem tudo é injustica, sexismo...

Menina Azul Reciclada said...

Pois, foi essa a mensagem que ficou gravada na minha cabeça. A interpretação de sexismo e machismo está também muito restrita à nossa visão do mundo, e creio que o mundo em muitos aspectos é incompreendido. Nestas nuances a nossa (in)compreensão pode ser bastante mais limitada do que aquilo que gostaríamos de admitir...