Sunday, January 21, 2007

Girls just wanna have fun


Just girls going out at night...
Uma mesma situação, dois cenários distintos, dois países distintos, duas mentalidades separadas por anos-luz...


Todos sabem que eu tenho cá as minhas "tricas" com a sociedade Holandesa, mas se há coisa que lhes reconheço e aprecio de largo é a igualdade e o respeito entre homens e mulheres - que apesar de estar longe ainda de ser a situação ideal, a verdade é que se encontra anos-luz à frente de Portugal.

Na Holanda uma mulher pode sair à rua, sozinha, de dia ou de noite, com um top mais decotado ou com uma mini-saia mais mini sem estar sujeita a ouvir todo e qualquer tipo de obscenidades que passe pela cabeça do transeunte. E isso é bom! Amigas minhas queixam-se que se sentem um bocado invisíveis na Holanda, que os homens não viram as cabeças quando elas passam... mas eu acho que isso é francamente bom! Para mim, descobrir esta faceta da Holanda foi como descobrir o El Dorado! Quando vivia em Amesterdão, a sensação de poder ir para casa à noite sem ter medo de ouvir comentários desagradáveis ou sem correr o risco de ser assediada pareceu-me um sonho longínquo pelo qual há muito ansiava! Escusado será dizer que assim que voltei a Portugal fui de novo largada para a realidade de uma sociedade ULTRA machista, e nesses primeiros tempos era ver a Menina Azul a explodir e responder forte e feio quando algum caramelo na rua se achava no direito de emitir os seus pensamentos mais íntimos.
A mentalidade na Holanda relaciona-se mais com a noção de respeito. Sim, porque os homens aqui também têm hormonas e também sabem apreciar uma mulher bem dotada e bonita, mas simplesmente não tiverem o imprinting genético (que os lusos parecem ter demais) que os leva a deixar de tratar aquela mulher como um ser humano e mais como um objecto de desejo sexual. Para eles a palavra e conceito de RESPEITO vem primeiro. E isso é mesmo muito bom!
Em Portugal, uma rapariga pode estar a passar na rua, completamente tapada dos pés à cabeça, com roupas largas tipo saco de batatas e ser feia como um camafeu, que ainda assim não está livre de ouvir os comentários mais porcos que possam passar pela cabeça de algum frustrado sexual que se passeie naquele preciso momento na rua. E desenganem-se os que pensam que isto se passa apenas em becos escuros, longe da vista das outras pessoas. Eu tenho um rol de histórias de assédios verbais a que tenho sido sujeita, que vão desde em autocarros cheios de pessoas à porta da minha casa. Isto não é normal! Não pode ser considerado normal! A sociedade não pode nem deve aceitar isto como normal! Digo e repito: NÃO É NORMAL!!!!

O macho português típico parece ainda saído da idade da pedra, um cruzamento raro entre o homem de Neandertal e um troglodita. No seu entendimento, o macho português tem o direito de disseminar a sua viril semente em tudo quanto seja fêmea que se mexa... às vezes nem isso: nem é preciso estarem vivas, basta estarem quentes! Para o macho português, uma fêmea não passa senão de um buraquinho lubrificado com pernas, que tem o extra de vir também com um par de mamas jeitosas e o atractivo de poder limpar a casa, tratar dos filhos e cozinhar o jantar sem reclamar. E ai dela se reclamar: aí um homem tem de mostrar quem veste as calças em casa...

"Segundo o Conselho da Europa, a violência contra as mulheres no espaço doméstico é a maior causa de morte e invalidez entre mulheres dos 16 aos 44 anos, ultrapassando o cancro, acidentes de viação e até a guerra."
in II PLANO NACIONAL CONTRA A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA 2003-2006 do Governo Português

Claro que estou a pintar um quadro dramático e a ilustrar uma situação extrema que existe na nossa sociedade. Mas a verdade é que a mesma sociedade que alberga situações onde uma mulher está sujeita a extremos abusos de violência física e psicológica, aceita que um homem faça um "piropo malandreco" a uma mulher na rua sem que isto seja visto como uma falta de respeito. Aliás, esta é uma sociedade que vê o "piropo malandreco" de cariz sexual até como uma forma de elogio ou galanteio àquela mulher - ao invés de se sentir ofendida ou atacada, a mulher deveria sentir-se orgulhosa de ser alvo de tão inocente "piropo". A raiz do mal é a mesma e está presente em ambos os casos, apenas com uma gravidade distinta.
Depois há ainda a versão de macho português que se acha no direito e diz coisas como "vestida daquela maneira, ela estava mesmo a pedi-las!". Bom... nem me vou pronunciar sobre este aspecto, porque me mete nojo...
Claro que seria demasiado fácil colocar todas as culpas do machismo em Portugal nos homens, mas a triste verdade é que a grande maioria das mulheres também contribui para isso... Ou não serão elas (em Portugal) as primeiras a tecer juízos de valor sobre a vizinha do lado, que é uma desavergonhada porque anda com "aquelas" roupas ou tem este ou aquele namorado?
Convenhamos: a nossa sociedade ainda tem um longo caminho a percorrer no que se trata de direitos da mulher e respeito pela mulher (agora podia começar a falar sobre a Lei do Aborto, mas fica para outra altura...). Bom, mas este post não pretendia ser um estudo profundo sobre o machismo na sociedade Portuguesa, mas sim uma pequena nota humoristica sobre as diferenças entre uma Girls Night na Holanda e em Portugal, e de como a sociedade à sua volta responde a isso. Apenas dissertei um pouco sobre o comportamento dos homens em Portugal, porque alguns dos meus amigos rapazes não sabem mesmo de todo aquilo a que uma rapariga está sujeita desde muito nova, e acha que nós exageramos quando temos medo de dar conversa a qualquer um ou temos receio de ir sozinhas para casa à noite...

Girls night Out em Lisboa (perspectiva dos predadores): entrevista a um frequentador da noite Lisboeta, conhecido pelas suas inúmeras conquistas na disco-night.
[El Matador]
Um grupo de cinco raparigas a dançarem no Lux, a divertirem-se à grande só pode querer dizer uma coisa - ratas aos saltos! O que elas querem sei eu! E não vale de nada dizerem que não estão interessadas 150 VEZES! Nós sabemos que o que elas querem é que nós voltemos a insistir... só mais uma vez... sim, porque as mulheres portuguesas são sempre a mesma merda: umas enjoadas-mete-nojo e para um gajo conseguir uma queca tem de estar ali a insistir e a bater o couro, porque o que elas querem é fazer-se de difíceis. Mas nós conhecemos-lhes as manhas todas e sabemos bem que às vezes, pá, um gajo tem de forçar um bocadinho!
[Entrevistador] Mas caro El Matador, não acha que é possível que um grupo de raparigas queira apenas estar com as suas amigas e divertir-se?
[El Matador] Ó meu amigo, você é muito ingénuo! Estou-lhe a dizer: eu conheço a noite e sei do que falo! Miúdas todas juntas a dançarem só precisam é de uma bem dada para ver se acalmam o pito (riso nojento). Mas amigo, falando a sério... Algumas miúdas queixam-se de ter demasiada atenção de gajos quando vão sair, de terem gajos na discoteca a dançarem atrás delas, tentando esfregar o viril membro contra os seus rabinhos arrebitados, e elas estão é a fazer-se de difíceis! Em Portugal as gajas reclamam de barriga cheia e é um gajo que tem de fazer o serviço todo! Um gajo é que tem de estar ali a noite TODA a bater o couro à miúda, e na grande maioria das vezes ela tem mais uns 5 à volta dela a tentar a mesma sorte. Por isso não percebo quando uma gaja faz ares de entediada quando eu tento meter conversa com ela na discoteca... ela devia era estar agradecida de eu a tentar engatar!
[Entrevistador] Mas já levou "nãos" na discoteca, dos quais não conseguiu sair vitorioso?
[El Matador] Bom, excepcionalmente isso terá acontecido. Eram umas fufas, filhas da puta, ressabiadas... não sabem o que perderam!
[Entrevistador] Pois, de facto... Mas repare, não acha que se uma rapariga quisesse conhecê-lo melhor que falaria consigo sem problemas quando a aborda? Acha mesmo que toda e qualquer rapariga portuguesa está a tentar testá-lo?
[El Matador] Estou-lhe a dizer: as mulheres neste país são umas mete-nojo! As estrangeiras é que estão a dar! Acha mesmo possível que uma rapariga não queira conversar comigo? Olhe bem para mim, para o meu corpo escultural, o meu metro e cinquenta e o meu palmo de cara: acha mesmo possível que ela não queira?!?!? Às vezes a mesma rapariga até pode ter um Brad Pitt ao lado e não me querer dar bola porque está mais interessada no outro, mas garanto-lhe que depois de passarem uma noite bem passada aqui com o El Matador as miúdas não querem mais nada! (riso nojento outra vez)
[Entrevistador] Mas o senhor já tem a sua quota de conquistas na night, não?
[El Matador] Não me posso queixar!
[Entrevistador] Então, segundo o que diz já deve ter uma boa rede de contactos (chamemos-lhe assim) de raparigas que, segundo diz, depois de o experimentarem não querem outra coisa, certo?
[El Matador] Ora, pois claro! (riso nojento OUTRA VEZ!!!)
[Entrevistador] Então, se já tem uma rede de contactos que seria suficiente para assegurar a sua vida sexual nesta e noutra encarnação, porque é que continua a ir à discoteca engatar gajas???
[El Matador] erghhhhhh...


Girls night Out em Rotterdam (perspectiva das presas):
Ontem à noite fui sair com uma amiga. Éramos duas, estávamos juntas e bem dispostas e Rotterdam era nossa! A noite passou-se lindamente, entre restaurante e Rotown divertimo-nos sem stress, sem melgas ou gajos peganhentos a meter conversa. Houve quem metesse conversa, é certo, mas foi de uma forma natural e não intrusiva. De onde és?, o que fazes?, posso oferecer-te uma bebida? A tudo a portuguesa mete-nojo respondeu com um sorriso, aceitou a bebida (a outra não quis beber; a outra continuou na sua de portuguesa mete-nojo... alguém tem de manter a fama!) e mais tarde o pobre rapaz percebeu que apesar de simpática, ela não estava interessada e foi tentar a sua sorte para outra freguesia. Não incomodou, não foi peganhento, tentou a sua sorte, não foi mal educado, não insultou quando percebeu que dali não ía levar nada. Vocês descubram as diferenças!
Bottom line: tenho de confessar que nem tudo decorreu tão smootly ontem como estou para aqui a publicitar... a verdade é que quando íamos caladas a passar numa rua fomos abordadas por um grupo de velhos que tinham idade para ser nossos pais a para ter juízo, que se saíram com um rouco e arranhado "Oooollllláááá...". Eram portugueses...

10 comments:

Menina Azul Reciclada said...

A autora do post e do blog reserva o direito à sua opinião e, ainda sabendo que não se metem os homens portugueses todos no mesmo saco, a verdade é que muitos dos pintas das disco-nights do país à beira-mar plantado se conportam como o caricaturado El Matador.

she said...

Depois ha outra face da moeda; na nl so' 10% dos professores universitarios sao mulheres enquanto os numeros la' no pt andam pelos 48%. E eu vejo imenso uma especie de pressao generalizada para as mulheres abdicarem das carreiras se querem uma familia. E a minha experiencia nao e' com os trolhas das obras ...

Menina Azul Reciclada said...

Concordo plenamente com a tua observação. Há uma grande contradição nesta sociedade, que eu não percebo... por isso disse que esta sociedade está longe de ser a ideal no que respeita a mulher. No entanto, sinto um respeito maior pela mulher em geral.

Menina Azul Reciclada said...

Só uma nota, uma notícia do DN que parece que vem mesmo de encontro a esta discussão:

http://dn.sapo.pt/2007/01/21/sociedade/um_quarto_mulheres_vive_salario_mari.html

"Mais de um quarto das mulheres portuguesas que vivem em casal dependem exclusivamente dos rendimentos do marido ou companheiro. Em 40% dos casos, a dependência feminina é variável, havendo ainda algum grau de sujeição. Só em cerca de 25% dos casos existe equilíbrio nos rendimentos auferidos pelos dois membros do casal. Curiosamente, a situação dos casais portugueses mais jovens com filhos pequenos é muito diferente daquela a que se assiste no resto da Europa. Aí as mulheres não trabalham ou fazem-no em part-time. Em Portugal, elas continuam a contribuir para o sustento da casa."

Maffa said...

Grande descriçao!
Eu também acho que a abordagem da maioria dos rapazes Portugueses em discotecas é demasiado directa e muito pouco original, quase nenhuma das vezes tenho vontade de continuar a conversar.
E nao é por ser mete-nojo. Mas para mim se a conversa for interessante até posso falar horas com desconhecidos. Mas tudo depende de como as coisas surgem...

Maffa said...

Mesmo as sociedades mais machistas já começam a ter respostas
check:
http://tiagointokyo.blogspot.com/2007/01/women-only.html

Menina Azul Reciclada said...

Acho q a resposta das mulheres pela criação de carruagens women only é tristemente necessária em algumas sociedades... é a revolta dos Davids contra os Golias, mas para mim não é um sinal de evolução da sociedade...

Quanto às one night stands, posso dizer-te que também as sei em Portugal... simplesmente por lá as pessoas têm mais pudor em falar delas. Não estou com isso a dizer que toda e qualquer pessoa já tenha tido uma, mas haverá mais a ter do que aquilo que sabemos... Elas cá são muito mais emancipadas no aspecto sexual, é verdade. Em países mais pró-feministas (como a suécia ou islândia) o caso
é ainda mais extremi, com as raparigas a fazer toda a abordagem e assédio aos rapazes nas discos. É caricato...
No entanto depois dos 30 parece que as holandesas progressivas e malucas tornam-se ainda mais conservadoras e caseirinhas que as nossas avós lá em portugal. É bizarro. Não encontro lógica para esta e outras incongruências... Mas acho que os reparos q te fazem por trabalhares e teres filhos são totalmente injustos! Acho que os miúdos crescem muito mais independentes e mentalmente saudáveis se virem a mãe como uma pessoa independente, de sonhos próprios, vontades próprias ao inv
és de se sentirem como os reizinhos da vida dos pais. Acho que és uma mãe melhor por conseguires conciliar os teus desejos pessoais com as necessidades dos teus filhos, e para mim és sem dúvida um modelo a seguir.
Mais uma incongruência: são total e completamente pais galinhas enquanto os miudos crescem, mas a partir de certa idade põe-nos fora de casa e criam um formalismo entre família onde é preciso ser-se convidado para ir a casa dos pais/filhos... vá-se entender...

Mais um exemplo de assédio/agressão verbal a que fui vítima e que é tão improvável e caricato que tenho de o descrever: estava com uma amiga minha a vir do Bairro pela Rua da Escola Politecnica e um tipo veio o caminho todo a incomodar-nos... era de noite e estavamos receosas, pelo que assim q vimos um policia pedimos-lhe ajuda. Já a ser escoltadas pela polícia, o tipo desta aos berros a chamar-nos os mais incríveis nomes... à frente da polícia... e este é o portugal q eu conheço...

Maffa said...

Isto das mulheres quererem ficar em casa a cuidar dos filhos em sociedades nao machistas é um assunto que me interessa.
Aqui nem se passa muito.
Sei que em Inglaterra é muito frequente mas porque os preços das creches sao altíssimos. E quase nao compensa trabalhar pois é só para pagar a creche qd se tem pelo menos dois filhos.
Ouvi dizer que na Holanda tb era caro... Pode ser um dos factores.
Por outro lado as mulheres aqui tb nao ocupam tao frequentemente lugares de chefia e de alta responsabilidade como se deveria esperar de uma sociedade fundadora do feminismo.
Mas acho que tem muito ver com a predesposiçao natural da mulher. E agora nao me chamem antiquada, mas em percentagem as mulheres satisfazem-se menos com uma carreira profissional fervilhante do que os homens. As necessidades emocionais da mulher vao em grande maioria ser mais a prioridade da sua vida.
Senao, como explicar a tendencia em sociedades totalmente igualitárias como o norte da europa em que as mulheres continuam a desistir da carrreira face aos homens?

Margarida said...

porque é o normal, porque é o esperado...
mas tambem porque de alguma forma (como a pb tb disse) o caminho é mais dificultado às mulheres, e isso é uma realidade! Na minha faculdade não há uma unica professora!!
Na minha universidade há umas reuniões agora para "mulheres cientistas" :-p ao principio não liguei nenhuma a achar que era para as mulheres cortarem nos homens ou assim. Mas não, uma colega minha que gostava de prosseguir na carreira académica tem ido, e diz que é bastante interessante. As mulheres e os homens têm caracteristicas diferentes e que nessas circunstancias fazem diferença. Talvez vá para a próxima, porque é importante.
Quando cheguei tive algumas dificuldades em mostrar aquilo que sabia, pois não falava confiante o suficiente e isso aqui é quase como respirar... e há outras caracteristicas para alem das culturais...

Menina Azul Reciclada said...

Pois... aqui na Holanda sei que muitas mães de família trabalham em part-time ou ficam em casa porque as creches são a preços exurbitantes, e acaba por ir todo um salário para isso. Percebo esse ponto de vista e talvez se fosse mãe, estivesse tentada a fazer o mesmo (confesso)...
Qunato às mulheres serem menos competitivas, acho que mais do que um factor biológico (que tb o há) trata-se sim de uma condicionante social/cultural - como referiu a Margarida. Na verdade, a testosterona também despolta instintos de competitividade, pelo que por norma os homens são mais combativos e mais agressivos. Mas também há mulheres que o são...