Saturday, July 19, 2008

Singularidades de uma Diva Americana

Photo by Spencer Tunick, 1997, Times Square, NYC

O barulho e' incessante... a corrupção dos sonhos em mescla com a perversão da inocência presente num background sonoro já indissociável da vida quotidiana. Enquanto comíamos o nosso pequeno-almoço - bagels afogados em cream cheese - sentadas num parque infantil, os risos das crianças combinavam-se com o som das sirenes. Eram so' 10 da manhã. Foi assim que NY acordou para mim - ou melhor dizendo, foi assim que eu acordei para NY. Desde esse momento hei-de sempre associar NY ao barulho, constante, incansável, palpável, presente, omnipresente, das buzinas e das sirenes... Parece difícil acreditar que existam tantas urgências em tão curto espaço de tempo. Mas tinha de existir em alguma parte. E se alguma coisa tem de existir, então tem mesmo de existir em NY.

Photo by Spencer Tunick, 1995, Brodway, NYC

NY e' o centro do Mundo. Todos os caminhos vão dar a NY. E a cidade sabe-lo. Apresenta-se-nos com trejeitos de grande dama e diva. Tem flutuações de humor, explosões de cor e alegria seguidas de gritos e drama. Ora cleptomaníaca, ora honesta. Ora enrugada, ora fresca.
Também gosta de representar papeis distintos e de se exibir em toda a sua versatilidade. Por vezes confunde-nos... Passamos de cenários grandiosos para bairros íntimos. Tão depressa andamos por ruas com sinais em chinês como, uma rua mais abaixo, ouvimos falar italiano e cheira-nos a pizza. Tão depressa estamos rodeados de lojas chiquérrimas como nos viramos e estamos rodeados por vendedores de malas Gucci falsas. E todas estas realidades, aparentemente dispares, coexistem pacificamente.

Photo by Spencer Tunick, 1996, Central Park, NYC

Mas nem so' de barulho e confusão se trata esta cidade. Nos lugares mais inesperados encontramos oásis de paz, pequenos nichos de intimidade. No coração da cidade existe um coração verde. Mal entramos nas suas entranhas o barulho começa a filtrar-se e somos surpreendidos com os sons dos nossos próprios pensamentos outra vez... para dai' a uns metros sermos de novo interrompidos (e surpreendidos) por multidões a fazerem jogging. Afinal estamos em NYC e a definição de paz e intimidade e' tão única aqui como o perfil Aquilino da própria cidade.
Dura, crua, verdadeira, como um soco no estômago. Not sugar coated. A realidade e' o que se ve ou aquilo que nos querem vender (ou que podemos comprar). Feia e cruel por vezes. Racismo, presente. Pobreza, presente. Desigualdades sociais, presente. Afinal de contas (e citando uma historia que me foi contada) esta e' a cidade onde sentados no metro, lado a lado, encontramos um sem-abrigo miserável e duas senhoras trocando dicas sobre yoga para os seus cães. A devassa da inocência, um cuspo na cara.
No entanto, e bem ao seu estilo antagónico, foi New York que me presenteou com um cenário digno de um conto de fadas. Foi aqui e não noutro lugar menos industrializado ou menos corrompido pelos vícios do capitalismo que vi, pela primeira vez na minha vida, um mar de pirilampos a enfeitar um jardim, qual arvore de Natal viva em plena noite de verão.
Ultimo dia, 4 da tarde. Saimos de Manhattan no nosso supershuttle com uma população tão heterogénea como a cidade. Olho para trás, já com saudade daquilo que nem sequer comecei a conhecer, compreender ou sequer aceitar, mas rendida 'as idiossincrasias da cidade.
Assim sempre a recordarei: neurótica e barrada em lox spread.


Photo by Spencer Tunick, 1996, Brooklyn Bridge, NYC

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