Estou bem aonde eu nao estou...

Regresso de Lisboa.
O avião levanta voo, lá em baixo a imagem pouco usual de uma (minha) cidade azul envolta num manto de nuvens.
Sinto um misto de nostalgia por um passado que já não existe e um presente que nunca foi meu. De onde fui e para onde vou? De onde pertenço na realidade? As sensações e emoções que outrora eram tão claras começam agora a esfumar-se, e as certezas transformam-se em incertezas... ou antes, em novas certezas.
A certeza de que já não pertenço a Lisboa.
A certeza de que não pertenço à Holanda.
A incerteza de saber se alguma vez voltarei a sentir que pertenço... seja onde for...
As minhas visitas a Lisboa estão cada vez mais assim... deambulações de quem já não é dali. Desprovida do cordão umbilical que antes nos unia, sinto-me à deriva numa cidade que conheço de cor, que sei os caminhos como a palma da minha mão, mas de onde já não faço parte. Uma estranha sensação de se estar perdido no que nos é tão familiar. A malha quebrou-se, mas as fibras do tecido ainda estão lá e quase que consigo detectar o ponto onde finalmente o tecido deu de si. Não sei se dá para remendar...
Sinto-me traída por Lisboa. Porque afinal a cidade continua sem mim, imutável, renovada, misteriosa, alegre, triste, etérea, eterna.
Abandonada pela menina e moça volto para os tentáculos da Holanda, caleidoscópica nas suas várias cidades que me abraçam, e também aqui não sei exactamente de onde sou...



6 comments:
sei o que sentes.. durante muito tempo senti o mesmo em relação a Lisboa e à minha cidade-mãe, Ponta Delgada.
Mas sabes? Passou! De há quase um ano para cá que sei que quero regressar, e vou voltar. As minhas visitas "a casa" passaram a visitas nostálgicas com planos para o futuro e as cidades tornaram-se, de um momento para o outro, mais minhas.
Ou eu tornei-me mais delas:)
Não te sintas triste, quando for a tua hora, Lisboa vai ser novamente "tua" :)
Pode ser que sim... espero que sim...
:)
lisboa é a única cidade que me deixa de lágrima no olho... quando chego... e quando parto... choro porque tb eu procuro o meu cantinho ali
Lisboa inspirou-te é o que te digo! belas reflexoes...
E' o fado e a saudade...
Menina Azul,
cheguei à conclusão no último fim-de-semana que estive em Portugal que já ali não pertenço, tal como aquelas pessoas já não me pertencem. Não me souberam encaixar na vida delas, e eu não me soube encaixar... Crescemos em caminhos diferentes e o pouco contacto que se foi tendo, como está visto, não ajudou. A pergunta é se alguma vez ali pertenci... E pensativamente e em tons de reflexão diz a minha voz dentro de mim que não. Pertenci e pertenceram a uma ilusão que criei. A um passado que me quis agarrar para pensar que ainda pertencia a esses sítios, a essas pessoas. Já chorei por estar longe, mas esse longe (vi e senti eu) nunca chorou por mim.
A conclusão disto tudo é que pertenço ao presente e ao aqui. é neste sítio que está a minha vida. Se essas pessoas virão ainda a pertencer-me ou não, não sei e agora também não me interessa. O que me parece importante é que estas foram as minhas escolhas e a elas pertenço. Pertenço-me a mim e a quem me acompanha. A quem se recusa a perder-me o rasto sem me prender. Seja lá isso onde for. Pertenço a todos aqueles para quem sou importante. Pertenço a ti, minha cara amiga, pertenço a mais algumas pessoas de quem tu sabes. É aqui que está a minha casa, o meu presente, pelo menos até ao dia em que voltarei a pôr a casa às costas outra vez.
Acima de tudo pertenço ao meu aqui e ao meu agora e tu também fazes parte dele. E como me disse um dos meus maiores e melhores amigos, daqueles que se recusaram a perder-me o rasto e que acompanharam a minha evolução ainda que de longe, longe...
(Jo)Ana, na vida os que interessam, são os que ficam.
Por isso, minha linda... preocupa-te com esses. E abraça-os os mais. Que esses não é apenas um estiveram ou estarão... é um estão.
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